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Relatório da ONU sobre aquecimento global - fatos e previsões

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  • 06 Fevereiro 2009
Por Thilo Kunzemann
 / Créditos: Reuters

Ativistas da mudança climática se manifestam em relação ao tema na conferência da ONU em 2010, em Cancún. O relatório do IPCC oferece vários cenários diferentes. (Foto: Reuters)

O aquecimento global é causado pelo homem. É o que diz o mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas desferindo um intenso golpe nos céticos em relação ao aquecimento global. Cientistas climáticos de ponta têm agora 90% de certeza de que a atividade humana está aquecendo o planeta e apresentam diversos cenários que demonstram aonde o aquecimento global poderia nos levar até o fim do século. A escolha é nossa.

Primeiro, os fatos conforme descritos no relatório. O aquecimento global é uma realidade, e “muito provavelmente” induzido pelo ser humano. Embora o termo “muito provavelmente” possa parecer vago, esse é o consenso máximo que 700 cientistas, 2.500 analistas e incontáveis funcionários do governo conseguiram alcançar sobre a responsabilidade da humanidade.

Os gases causadores do efeito estufa em nossa atmosfera aumentaram desde 1750 devido ao consumo de combustíveis fósseis, às novas formas de uso da terra e à agricultura. Embora a poluição atmosférica tenha tido um efeito de resfriamento durante os últimos séculos, o aumento maciço de gases estufa ocasionou uma elevação de 0,74º Celsius nas temperaturas médias desde 1901. Os cientistas têm 90% de certeza de que a última metade do século XX foi o período mais quente no hemisfério norte em 500 anos.

"Numerosas mudanças climáticas de longo prazo têm sido observadas. Elas incluem mudanças nas temperaturas e no gelo do Ártico, disseminadas nas quantidades de precipitação pluviométrica, na salinidade oceânica, nos padrões eólicos e nos aspectos de intempérie, inclusive secas, precipitação intensa, ondas de calor e a intensidade de ciclones tropicais."
[IPCC: Resumo dos Formuladores de Políticas, p. 8]

Homem é o responsável pelo aquecimento da Terra

Os cientistas aprimoraram suas simulações e agora têm uma ideia bastante satisfatória dos efeitos das emissões de dióxido de carbono. Uma duplicação dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera relaciona-se a um aquecimento global da ordem de 3º Celsius, mais ou menos um grau. Ainda que consigamos reduzir as emissões de carbono até os patamares do ano 2000, essa duplicação do dióxido de carbono é inevitável. O aquecimento, conforme o relatório, não será distribuído uniformemente pelo globo terrestre. Os efeitos serão mais pronunciados nas latitudes norte da Terra.

Os críticos frequentemente mencionam mudanças na radiação solar como responsáveis pelo aquecimento global. Embora os cientistas tenham constatado flutuações na radiação solar, seus efeitos são cerca de 20 vezes mais fracos do que o aquecimento induzido pelo homem.

Nesse ínterim, as geleiras do mundo inteiro estão diminuindo, um efeito também perceptível nas bordas do vasto escudo glacial da Antártica. Os cientistas afirmam que os níveis do mar já se elevaram 17 centímetros durante o século XX, o que se deve, na maior parte, ao simples fato de que a água quente tem um volume maior do que a água fria. Com o derretimento das calotas polares e geleiras, o aumento anual dos níveis quase dobrou desde 1993, a uma taxa de aproximadamente 3,1 mm. Ainda que as emissões de dióxido de carbono possam ser estabilizadas, os níveis do mar continuarão a subir por séculos, até que o aumento de temperatura tenha atingido as profundezas dos oceanos.

Aquecimento global causa mais chuvas e tempestades
As descobertas também demonstram que a atmosfera retém agora mais vapor d’água, uma das forças impulsionadoras de tormentas e enchentes tropicais. Desde 1960, os ventos ocidentais ganharam força em todo o planeta. O Atlântico foi especialmente afetado por ciclones mais frequentes e intensos, um fenômeno alinhado ao aumento das temperaturas das águas superficiais. O relatório afirma que a chance de as tempestades intensas terem sido impulsionadas pelo aquecimento global é de seis em dez.

As temperaturas árticas aumentaram duas vezes mais depressa do que as temperaturas médias globais. O gelo de verão no Oceano Ártico está diminuindo em 7,4% por década. Até o fim do século, o gelo no Ártico pode muito bem desaparecer no verão. Enquanto isso, o permafrost está desaparecendo. Desde 1900, o solo sazonalmente congelado do Hemisfério Norte sofreu um estreitamento de cerca de 7%. Isso liberou grandes quantidades de metano, outro potente gás estufa. Ainda não se conhece satisfatoriamente em que medida esses efeitos colaterais ampliam o aquecimento global contínuo. Os cenários do IPCC, portanto, não consideram possíveis efeitos que acelerariam o aquecimento global.

Os padrões de precipitações pluviométricas também mudaram durante o século passado. Ocorrem expressivamente mais chuvas nas regiões orientais da América do Norte e do Sul, no norte da Europa e no norte e no centro da Ásia. Por outro lado, períodos de seca são mais frequentes no Sahel, no Mediterrâneo, no sul da África e em partes do sul da Ásia.

Os cenários do IPCC

Os cientistas de ponta do mundo reuniram dados e experimentos disponíveis e delinearam sete cenários climáticos para o século XXI. Os resultados dependem – afirmam eles – do nível de expansão demográfica e econômica e da seriedade com que encararmos o combate contra o aquecimento global.

Patamar de 2000: Se conseguirmos estabilizar nossas emissões de gases estufa aos níveis alcançados no ano 2000, ainda sentiremos o calor, mas o aumento será inferior a 1ºC ao longo dos próximos cem anos. Infelizmente, essa opção não é sequer considerada um cenário real, mas serve como um parâmetro de excelência a ser comparado aos modelos mais realistas.

Economia nos serviços globais: O cenário B1 apresenta o panorama mais otimista: até meados do século, a população global terá atingido um pico e declinará em seguida. As rápidas mudanças econômicas acarretarão uma economia de serviços e informações baseada em tecnologias limpas e eficientes. A comunidade internacional se unirá em torno de soluções políticas – como o Protocolo de Kyoto – para a redução de gases estufa. Embora isso possa soar promissor, ainda assim haverá aquecimento global, embora não além da faixa de 1,1 a 2,9º Celsius. O aumento do nível do mar ficará entre 18 e 38 centímetros até o fim do século.

Crescimento populacional: O cenário B2 é menos cor-de-rosa. A população global crescerá continuamente, enquanto os esforços de atenuação de mudanças climáticas terão um enfoque regional. Isso se traduz em um aumento de temperatura da ordem de 1,4 a 3,8º Celsius. Os níveis do mar aumentarão de 20 a 40 centímetros até 2100.

Crescimento econômico acelerado: O cenário A1 foi desmembrado em três subdivisões. Cada uma delas baseia-se em economias de crescimento rápido e em um número crescente de pessoas, embora as populações venham a declinar rumo à segunda metade do século.

A1FI representa “ocupado como sempre” – um mundo que ainda se move a carvão e gás. É aqui que as previsões são mais chocantes: Ganhos de temperatura da ordem de 2,4º a 6,4ºC serão possíveis. O mar subiria cerca de 26 a 50 centímetros até o fim do século, alagando grandes cidades costeiras e numerosas ilhas.

A1B – o cenário mais provável, dadas as tendências atuais – também é alarmante. Embora os combustíveis fósseis ainda sejam amplamente usados, eles são parte de uma mistura de energia mais equilibrada. Ainda assim, até o fim do século, as temperaturas terão subido cerca de 1,7º a 4,4º Celsius, com os oceanos ganhando cerca de 21 a 48 centímetros. As precipitações pluviométricas podem sofrer um declínio da ordem de 20% nos subtrópicos, ao passo que haverá mais precipitações nas latitudes norte e sul. A Corrente do Golfo não irá parar, mas perderá cerca de um quarto de sua força.

Finalmente, A1T é um mundo que sobreviveu a uma terceira Revolução Industrial – uma conversão difundida para fontes “verdes” de energia. Ele se assemelha à B1, no sentido de que as temperaturas e os oceanos subirão, mas em um limite que especialistas como Hans Joachim Schellnhuber denominam “manejável”. 



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